Empatia no tempo da inteligência artificial

A empatia é a capacidade de compreender e compartilhar os sentimentos do outro, aspecto essencial para cumprir as duas funções inter-relacionadas de um estudante de medicina: o profissionalismo e a capacidade clínica. A capacidade dos médicos de ter empatia com seus pacientes é crucial para um cuidado adequado. A empatia do médico é benéfica para os pacientes, havendo uma relação linear entre empatia e resultado clínico positivo conforme muitas publicações científicas. A empatia é terapêutica por reduzir a ansiedade dos pacientes.  A comunicação empática pode ajudar a evitar muitos erros de comunicação médico-paciente que levam na prática a muitos desentendimentos. A empatia desde a graduação tem entrado no currículo tradicional da educação médica.  Na Índia por exemplo, este tema na educação médica não estava bem organizado até recentemente, quando o Conselho Médico da Índia propôs uma reforma na educação médica, incluindo habilidades como Atitude, Ética e Comunicação (AETCOM). Exemplo para o Brasil.

Na literatura há poucos estudos sobre empatia entre os estudantes de medicina. Alguns mostraram que a empatia diminui ao longo da graduação, o que é motivo de preocupação significativa, porque é sempre esperado que haja um aumento da empatia. Eles também mostraram uma relação de empatia com a escolha de especialidade dos estudantes, onde o aluno que optou por clínica geral e pediatria tinha mais empatia em comparação com atividades não generalistas. Alguns outros estudos não mostraram uma mudança significativa de empatia durante o curso. Ainda assim, observaram que os escores de empatia foram melhores naqueles estudantes que tiveram maior abertura para a experiência e capacidade de agradar ao próximo, desde a admissão até o final do curso. É interessante notar que a maioria dos estudos mostrou que os escores de empatia são melhores entre as estudantes do sexo feminino. Entretanto, empatia e compaixão não podem ser consideradas como traços meramente inerentes de um médico, mas podem ser melhoradas através de treinamento; e a AETCOM pode ser um modelo prático.

A AETCOM começa no primeiro ano do curso médico quando os estudantes são ensinados a ter a sentir o que significa ser um “paciente” ou “médico”. As relações médico-paciente e a comunicação são ensinadas durante o restante do primeiro ano. Esta é uma excelente maneira de iniciar o curso, bem antes de começarem a aprender o que é a estrutura humana, a função e a doença. Isto os faz sentir pelo e por quem estão no curso. Durante este período crucial de treinamento, as ficções são a chave para ensinar empatia. É fato que antes de ingressar no curso médico, pelo menos por alguns anos, a maioria dos estudantes foi privada de atividades extracurriculares para que pudessem obter um excelente resultado e virem a ser admitidos nas melhores faculdades de medicina. Concentrar-se nas ciências básicas e negligenciar as artes e humanidades pode resultar em um médico emocionalmente atrofiado, mesmo quando conseguem entrar nas melhores instituições.

AETCOM é um modelo que usa “ficção” no ensino, pois ela tem a vantagem adicional de ser um redutor de estresse. Estudos estão evidenciando que melhorias significativas na empatia e atitude dos estudantes de medicina em relação à humanização, podem ser alcançadas participando de intervenções baseadas na literatura. Autobiografias não-ficcionais como “quando a respiração se torna ar”, uma história de um neurocirurgião indiano-americano, que sofreu um câncer de pulmão, pode ser um recurso útil para ensinar empatia. Embora a inteligência artificial seja agora capaz de fazer muitas tarefas, incluindo realidades virtuais, elas podem reduzir a carga laboral do médico para que ele possa ser mais empático.

E as máquinas ainda carecem de qualidades humanas como empatia e compaixão.

 

Dr Claudio Nunes

Consultor Médico da JME Informática

REFERÊNCIA

Bhat VS. Empathy in the time of artificial intelligence: Fiction not fact may hold the key. Med J DY Patil Vidyapeeth [serial online] 2020 [cited 2022 Mar 14];13:703-4