A empatia pode ser treinada?

 A empatia é uma parte essencial da comunicação médica. Trata-se de um construto que infelizmente cai progressivamente desde o início dos cursos, em especial nas Faculdades de Medicina. Posteriormente se perpetuam em níveis baixos em relação às necessidades dos pacientes, comprometendo seus desfechos clínicos e a sua percepção de valor. A abordagem empática cria um ambiente propício à coleta de informações, promovendo um sentido de apoio e reforço na relação fundamental entre o paciente e o médico.

O estabelecimento da empatia é um processo de duas vias:

1. O médico deve primeiro criar um ambiente no qual o paciente sinta-se confortável, para compartilhar assuntos que lhe diz respeito;

2. O médico deve então ter a capacidade de dar feedback para o paciente, quando efetivamente os momentos de empatia tiverem ocorrido. E para fazer isso, sempre numa forma profissionalmente apropriada.

Há 12 (doze) dicas que deverão ser lembradas e praticadas num ambiente de simulação realística envolvendo o treinamento em empatia clínica para estudantes de Medicina, de Enfermagem e das demais categorias envolvidas com a Saúde. Da mesma forma podendo ser aplicado nas categorias de profissionais de Saúde no mercado de trabalho.

DICA 1:  Prepare-se!

O cenário de role-play (desempenho de papéis) exige uma abordagem específica em empatia. Os cenários preferidos incluem aqueles em que um paciente está enfrentando algum tipo de adversidade, preocupação, tristeza, luta ou situação difícil. Adaptações de cenários da vida real podem acrescentar autenticidade. Uma pré-discussão entre o tutor e o Ator da Simulação é a chave para esclarecer qualquer detalhe médico e histórico do caso. Devem alinhar os tipos de comportamentos empáticos, procurando estimular com escuta atenta e declarações sinceras de empatia. Os atores deverão evitar uma dramatização exagerada. Da mesma forma sempre lembrar aos alunos que eles sejam eles mesmos durante a encenação.

 DICA 2: Combinar previamente as regras de feedback

As boas práticas incluem dar ao treinando a oportunidade de interpretar o papel na primeira oportunidade de feedback, encorajando um equilíbrio de pontos positivos bem como de melhoria, tornando específicas as observações, evitando comentários desdenhosos ou julgamentos – o feedback se baseia na observação do comportamento, não julgamento de caráter. Disponibilizar tempo suficiente para explorar como o ator se sentiu na consulta – empatia e sentimentos estão intimamente interligados. Para o tutor, também, há uma oportunidade de servir de modelo de abordagem empática na condução da sessão, permanecendo atento ao fato de que receber feedback sobre os níveis de empatia é potencialmente desconfortável para o treinando. Para evitar o domínio, os tutores devem deixar seu feedback para o final, e que tenham o cuidado de evitar linhas de questionamento que transformem feedback em um jogo de “o que estou pensando”?

 DICA 3: Tente dar um feedback do papel desempenhado

Durante a sessão de feedback há uma oportunidade de fornecer feedback no “desempenho dos papéis”, detalhando como eles foram feitos para sentir o retorno do aluno. Este é um potencial poderoso de ajuda para desenvolver a abordagem empática junto aos pacientes, dado que a empatia se centraliza na capacidade de entender os sentimentos do outro.

 DICA 4: Ouça o paciente

Empatia é mais do que ouvir, mas o aluno que ouve bem já estará no caminho certo para mostrar empatia. A escuta atenta é um pré-requisito para identificar a empatia. Fornecer feedback sobre a escuta e comportamentos, especialmente com contato visual apropriado. É normal desviar o olhar enquanto falamos, mas ao ouvir o paciente, o contato visual se torna essencial. A falta de contato visual pode comunicar desinteresse, dificilmente compatível com uma consulta empática. Analisar a linguagem corporal da escuta: inclinar-se ligeiramente para frente demonstra interesse, enquanto o ocasional aceno e sorriso encorajam o paciente a contar sua história. Considere as barreiras à escuta. Peça ao aluno para evitar distração com canetas, e que sempre mantenha silêncio na escuta. Interromper ou simplesmente entrar muito rápido com a próxima pergunta, também pode ser frustrante para os pacientes. Durante o feedback, considere o ritmo do aluno, e se ele deu tempo suficiente antes de fazer a próxima pergunta.

 DICA 5: Interessar-se pelo paciente

Durante o feedback, explorar se o aluno mostra interesse no paciente como pessoa.  Os estudantes de medicina em particular, muitas vezes não têm certeza se as fronteiras profissionais limitam sua capacidade de perguntar sobre como os pacientes estão se sentindo, ou até onde podem explorar os problemas interpessoais ou de relacionamento que podem estar subjacentes às razões da consulta. No entanto, pacientes geralmente acolhem bem a um ser humano e sensível na abordagem, para compreender o quadro holisticamente.

 DICA 6: Fazer boas declarações empáticas

A simulação proporciona um bom ambiente para experimentar declarações empáticas e para obter feedback sobre sua eficácia. Uma vez que os médicos muitas vezes perdem a oportunidade de fornecer dicas de empatia, ela é um bom exercício para o tutor fazer anotações de pistas que não foram reconhecidas. Às vezes expressões não-verbais, como um aceno de cabeça ou um sorriso de reconhecimento comunicam empatia com mais eficácia do que as palavras. Também, as palavras precisam ser acompanhadas por corretas expressões e adequados tons de voz. Sabe-se de pesquisas de comunicação que quando as palavras são combinadas por expressões não verbais incongruentes, é a linguagem corporal que vence. A expressão “isso deve ser difícil”, sem contato visual e um tom de voz desinteressado faz uma declaração de empatia ser pobre.

A empatia falsa pode irritar os pacientes.

 DICA 7: Adote uma abordagem humana

Ser humano é uma frase que os próprios atores de simulação cunham como um componente essencial da conexão com o paciente. Uma abordagem humana é mais provável de encorajar o paciente a revelar questões que são importantes para eles, e essencial para criar um ambiente em que ele se sinta confortável o suficiente para expressar suas preocupações – preocupações que podem então ser atendidas com empatia e compreensão por parte do aluno. Considerar se o aluno fez suas perguntas de uma forma humana: adotando uma abordagem coloquial para o questionamento, pegando as pistas dadas pelo paciente, o que é muito mais natural do que seguir roteiros. Fazer perguntas abertas, especialmente na primeira parte de uma consulta, sinaliza que o aluno está interessado na agenda do paciente. Em contraste, muitas perguntas fechadas arriscam o aluno a parecer um robô.

Naturalmente, estudantes e médicos também são humanos e é importante reconhecer que um aluno pode ter dificuldades com a empatia profissional se o cenário cobrir uma área em que eles se sintam emocionalmente vulneráveis – por exemplo, um aluno que tenha tido um grave problema de saúde ou um luto.

A prática encoraja os praticantes a atenderem de forma não julgadora a seus próprios processos físicos e mentais.

 DICA 8: Usar linguagem simples e clara

Uma abordagem humana se estende ao uso da linguagem. Observar a escolha de palavras do aluno, e se eles usarem termos técnicos ou jargões, como se “a dor irradia”, na melhor das hipóteses o jargão causará confusão, como se idiomas diferentes fossem falados gerando baixo alinhamento empático. Na pior das hipóteses evoca uma lacuna de poder, desencadeando um sentimento de tolice no paciente, que favorece a uma interrupção no fluxo de comunicação.

DICA 9: Não julgue o paciente

É improvável que o paciente que se sinta julgado adversamente considere seu interlocutor como empático. Explorar qualquer exemplo de julgamento adverso que muitas vezes são sutis e não intencionais. Por exemplo, evite vincular a identidade de um paciente a um hábito insalubre: “você é fumante?” É pior do que “você fuma”? Da mesma forma, as suposições feitas pelo aluno podem gerar o sentido de julgamento para os pacientes. “Que trabalho você faz?”  Pode deixar um paciente desempregado sentir-se constrangido. Assim como com outras suposições, elas são fáceis de evitar com um pouco de reflexão e previdência.

DICA 10: Espelhar o paciente

Mostrar empatia é mais do que simplesmente encontrar as palavras certas para dizer. Os atores de simulação deverão ser bem versados no conceito de espelhamento. Em seu nível mais simples de espelhamento, o exercício na oficina de atuação envolve espelhar as posturas e movimentos de outro. Na interação humana o espelhamento é mais sobre como ajustar a postura, a expressão e o tom de voz, para se adequarem ao humor e comportamento do paciente. Estes ajustes momentâneos que os alunos fazem são um terreno fértil para o feedback e discussão. Eles criam as condições para o alinhamento empático.

 DICA 11: Seja flexível

Reconhecer que o estado de espírito de um paciente será alterado durante uma consulta. Ele pode se sentir ansioso ou “fechado” no início, e isso pode fazê-lo não responder a uma pergunta, se feita logo no início. Mais tarde, no entanto, se o aluno criar um bom relacionamento e construir confiança, o paciente poderá estar muito mais inclinado a compartilhar informações ou mais detalhes. O aluno precisa aprender a ler a mudança de humor do paciente e responder a isso. Não se deve ter medo de voltar a uma pergunta quando sentir que o paciente relaxou. Deve-se sempre explorar estas mudanças dinâmicas entre treinando e paciente.

 DICA 12: Lembre-se do poder curativo do toque

O toque expressivo foi definido como o toque do exame físico, utilizado pelo clínico como forma de comunicação. Ele é uma ferramenta poderosa para expressar apoio, fazendo uma conexão humana entre médico e paciente. Os alunos devem considerar dois tipos de contato. O primeiro é um aperto de mão como uma saudação, sendo um estabelecimento de uma abertura calorosa e acolhedora para uma consulta. A segunda é uma mão no braço ou ombro durante uma dramatização de más notícias de última hora. O braço ou o ombro são geralmente considerados como zonas seguras.

 

Embora alguns possam argumentar que a capacidade de sentir e expressar a empatia não possam ser ensinados, neste artigo são demonstradas as pistas e os passos concretos para promover a empatia, com a utilização de atores experientes (Simuladores de Pacientes), dentro da segurança de um ambiente de simulação realística.

 

Dr Claudio Nunes

Consultor Médico da JME Informática

 

 

Baseado no artigo:  Twelve tips for teaching empathy using simulated patients William Laughey et al Medical Teacher Vol 41, 2019. Issue 8- 883-887.  https://doi.org/10.1080/0142159X.2018.1481283